Blog da Brigitte

Menino na janela

Publicado em 29 de janeiro de 2016
Crise e TPM Foto: Divulgação Menino na janela Foto: Divulgação

Todo dia quando vou para academia malhar, visando a manutenção do meu corpo perfeito, passo por uma casa onde tem sempre um menino na janela. Ele aparenta ter mais ou menos uns 9, 10 anos e a impressão que tenho, é que ele fica ali me esperando passar só para me ver. É uma versão bem teen dos assobios dos pedreiros nas obras, entendem? (Estou falando isso porque já o vi, várias vezes, fazer um biquinho bonitinho e um arremedo de som em algumas ocasiões).

Quem nunca ouviu falar das famosas cantadas de pedreiros nos canteiros de obras espalhados pela cidade? Algumas mulheres acham um absurdo esse tipo de cantada e se sentem ofendidas, outras não ligam e tem ainda aquelas que, dependendo do pedreiro até acham uma boa ideia... Sinceramente não consigo ter uma opinião definida sobre essa situação. Tudo depende de como acordo, se está sol, chuva, onde é a obra, se estou na TPM, enfim são inúmeras variantes que não valem a pena discutirmos isso agora...

Voltando ao menino na janela, a cada dia era um sorriso diferente. De uns tempos para cá, notei que ele sempre estava com um caderninho na mão. Passaram dias e aquele menininho, de riso fácil ao me ver passar, via ele começar a escrever toda vez que eu dobrava a esquina de sua rua. Pelo visto, a cada dia era uma notação diferente.

Com o passar do tempo, a minha curiosidade aguçava cada vez mais. O que será que ele tanto escrevia? Um dia, ao virar a rua, notei que seu caderno havia caído no chão. Me apressei para pegá-lo. Ia dar uma espiada e, em seguida, devolveria ao estimado garoto. Quando eu achei que tudo ia dar certo, o carteiro apareceu do nada, se agachou, pegou o caderno e devolveu ao menino. Minha chance de saber o que estava escrito tinha ido por água abaixo. Mas sou brasileira e não desisto nunca.

Mais uma semana se passou e as anotações não paravam. Milhares de ideias borbulhavam na minha cabeça. Meu pensamento viajava por mundos inimagináveis. Imaginei que eram declarações de amor para mim, desenhos especiais, poemas, poesias... mas a dúvida me corroía por dentro. Juro que até pensei em perguntar o que tanto ele escrevia naquele simpático caderninho. Mas isso seria demais para uma jornalista gabaritada como eu.

Passei a retribuir o sorriso que ele me dava e até a arriscar um “oi, tudo bem?”. Até que numa tarde de primavera, quando os ventos insistiam em soprar com um pouco mais de força, as frágeis mãos do menino não conseguiram segurar com firmeza o caderno e ele voou pela janela. Não pude acreditar, mas aquele bendito caderno estava bem ali, na minha frente, aberto, escancarado, pronto para ser lido...

Um clarão do céu pairou sobre o caderno quando o peguei. Até que enfim, eu iria finalmente saber o que tanto ele escrevia. Por ser um menino, não poderia rir dos seus sonhos e desejos. Tomei coragem e, quando abri, uma grande surpresa: todas as páginas estavam em branco, sem nem uma letrinha escrita. Nenhum rabisquinho.

Ele olhou pra mim com um sorriso terno, riu e disse que não havia nada escrito porque aquele era um caderno novo, que a mãe havia acabado de comprar...



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Brigitte Belmont

brigitte@jornalpress.com.br
Brigitte Belmont é jornalista, publicitária, relações pública, fotógrafa, colunista, redatora, revisora, radialista, apresentadora, produtora, modelo, atriz, diretora, escritora, web designer, pintora, artesã, atleta, maravilhosa, esplendorosa, magnífica, inteligente, poderosa, modesta e mulher presente nas mais variadas e distintas situações para mostrar que a cidade não para e está sempre em movimento.

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